Final de Lanternas decepciona: mistério resolvido, promessa esvaziada

Montagem de John Stewart e Hal Jordan com uniformes amarelos inspirados nos Lanternas
Montagem ilustrativa criada com IA, enviada por Rodrigo Medrado. Não é uma cena oficial da série.

Aviso: esta crítica contém spoilers do final da primeira temporada de Lanternas.

O último episódio de Lanternas, exibido em 4 de outubro, resolve o assassinato de Hal Jordan, mas deixa uma sensação de promessa esvaziada. Depois de tantos mistérios e sinais de uma ameaça maior, o encerramento entrega respostas sem dar a elas o peso que a temporada parecia construir. Para o VarianteNerd, o saldo é de decepção.

O episódio oito, Dirt and Stars, concentra sua conclusão nas escolhas de John Stewart e no drama da família de Noah. Essa proposta pode funcionar para quem acompanhou a série sobretudo como investigação e história de origem. Para nós, faltou transformar essa resolução em um momento convincente de afirmação do Lanterna Verde.

Os Caçadores Cósmicos perderam a dimensão da ameaça

Noah é um Caçador Cósmico, nome pelo qual os Manhunters são conhecidos no Brasil. O final explora seus desejos humanos e o conflito com a programação que carrega. John escolhe conversar com ele e poupá-lo, em vez de resolver o confronto com uma batalha. A série aposta na empatia como saída.

Essa humanização, por si só, não seria um defeito. O problema é o que ela deixa para trás. A ameaça construída ao redor desses seres termina reduzida a um conflito íntimo, e o episódio não dá o mesmo peso às consequências de permitir que alguém com esse potencial continue livre. Compreender Noah deveria tornar a decisão mais difícil, não diminuir a sensação de perigo.

Nos quadrinhos, há um histórico muito mais brutal. A página oficial de Atrocitus na DC descreve como os Caçadores Cósmicos exterminaram quase toda a vida do setor espacial 666, incluindo sua família. É daí que vem a expectativa de uma ameaça capaz de devastar populações, e não apenas desestabilizar uma pequena comunidade.

Uma adaptação pode mudar esse caminho. Mas, ao evocar uma mitologia tão pesada, precisa sustentar a tensão que ela cria. Na nossa leitura, o final troca a dimensão aterradora dos Caçadores Cósmicos por uma resolução emocional que não compensa o esvaziamento da ameaça.

Hal Jordan segue importante, mas isso não basta

Kerry é revelada como a responsável pela morte de Hal, em uma tentativa de proteger Noah. O episódio também permite uma despedida entre John e o holograma do veterano. Há uma intenção clara de encerrar a relação de mentor e sucessor, e Hal continua essencial para a trajetória do protagonista.

A nossa frustração é com a forma como a temporada usa essa importância. Hal ganha um peso trágico e afetivo, mas sai diminuído diante da expectativa de ver uma das figuras centrais dos Lanternas Verdes em ação. Ser indispensável à origem de John não deveria resumir tudo o que ele oferece à história.

A despedida tenta recuperar o vínculo entre os dois. Ainda assim, um fechamento carinhoso não resolve automaticamente os problemas de caracterização acumulados. Para quem esperava a força e a presença do personagem dos quadrinhos, sobra a impressão de que a série pediu investimento em Hal e entregou menos do que poderia.

Hal Jordan usando o uniforme de Lanterna Verde em material de divulgação de Lanternas
Imagem: HBO/DC Studios/Divulgação

A bateria de John e a transformação que ficou pela metade

Sinestro cria uma bateria com fissuras amarelas associadas ao medo. John a utiliza para recarregar seu anel e assume seu próprio caminho, com um juramento particular. É uma escolha que mistura a origem do novo herói com uma energia que os fãs associam imediatamente ao polo oposto da mitologia dos Lanternas Verdes.

Aqui cabe precisão: John não termina oficialmente apresentado como integrante da Tropa Sinestro ou como um Lanterna Amarelo. A luz de seu anel continua verde. Nossa crítica é à decisão de fazer essa afirmação de identidade depender de uma bateria marcada pelo medo, sem esclarecer de maneira satisfatória as implicações dessa combinação.

A ideia de reconhecer o medo e seguir adiante poderia render uma conclusão forte. No episódio, porém, esse conceito fica mais explicado por falas do que demonstrado pela ação. A bateria traz uma promessa dramática enorme, e o resultado parece adiar para outra história aquilo que deveria dar força a este encerramento.

Também faltou o momento visual mais simples e esperado: John materializar o uniforme com o anel. Ele chega ao fim de sua origem, mas a série não entrega essa imagem. O uniforme seria uma conclusão concreta para a transformação que acompanhamos durante oito episódios. Sua ausência pesa porque até esse gesto foi deixado para depois.

Peter Jordan também criticou a falta de entrega

Peter Jordan reagiu no X à distância entre a expectativa criada e o resultado. Em um post publicado às 0h13 de 5 de outubro, ironizou a promessa de diferentes cores com a frase “NÃO TEVE NEM O VERDE”. A publicação exibia cerca de 8 mil curtidas na consulta. Abaixo está o post original.

A provocação expressa frustração com a experiência de assistir à série. Ela não deve ser lida literalmente como ausência de qualquer luz verde, anel ou poder ao longo da temporada. O ponto é a falta de uma entrega que faça justiça à expectativa de ver esses personagens plenamente como Lanternas.

Há quem tenha gostado, mas o saldo aqui é decepção

A recepção não foi unânime. Joe George, no Den of Geek, deu quatro de cinco estrelas ao final e defendeu a prioridade do drama sobre o espetáculo. Para ele, a conversa de John com Noah e sua autonomia completam uma boa história de origem.

Entendemos essa leitura. O que não compramos é a ideia de que o desenvolvimento emocional, sozinho, basta para sustentar o encerramento. Uma boa conversa pode resolver um conflito pessoal e ainda deixar fraca a resolução da ameaça que manteve a temporada em movimento.

O VarianteNerd já havia reunido teorias sobre o final de Lanternas. O problema não é o roteiro ter escolhido outro caminho. É o caminho escolhido não oferecer uma recompensa dramática à altura dos elementos que a própria série colocou em jogo.

Faltou peso para os Caçadores Cósmicos, faltou uma conclusão mais forte para Hal e faltou John assumir visualmente o lugar que a história preparou para ele. O episódio fecha a investigação, mas não fecha essa conta. Como final de temporada de Lanternas, é narrativamente fraco e deixa a decepção como principal lembrança.

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